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Entrevista a Luís Graça sobre vacinas, movimento antivacinas e covid‑19

Médico explica prevenção de vírus a grupo de jovens usando modelos de vírus e vacina numa sala iluminada.

A quebra de confiança global nas vacinas tem vindo a coincidir com o reaparecimento, em várias regiões, de doenças que se podem evitar - como o sarampo - e com uma memória cada vez menos presente do peso real de infeções que estiveram perto de desaparecer.

Nesta entrevista, o imunologista Luís Graça regressa aos momentos mais duros da pandemia, desfaz ideias feitas sobre tecnologias vacinais recentes e chama a atenção para perigos muito concretos de um retrocesso que já não é apenas uma hipótese teórica.

O olhar do imunologista Luís Graça sobre o movimento antivacinas

Para começar com uma provocação: como cientista, consegue compreender o movimento antivacinas?

A meu ver, este grande movimento antivacinas nasce, em grande medida, do enorme êxito da vacinação. Quando alguém toma um medicamento para tratar uma doença, vê de forma imediata o efeito positivo do tratamento a aliviar o problema. Com as vacinas acontece o contrário: existe uma tendência para se ir perdendo a lembrança das doenças que elas evitam.

“Acredito que este grande movimento antivacinas é consequência do enorme sucesso da vacinação”

Em termos históricos, quando é que também existiu hesitação em relação às vacinas?

Isso apareceu logo após as primeiras vacinas. A primeira de todas foi criada por [Edward] Jenner, no Reino Unido, contra a varíola. Ele percebeu que, ao inocular pessoas com o vírus responsável pela doença nas vacas, e dada a proximidade entre os vírus, essas pessoas ficariam protegidas. Naquele tempo, houve quem considerasse antinatural injetar em alguém o “material de vaca”.

Portugal, confiança nas vacinas e impacto além-fronteiras

Portugal é um caso curioso: tal como noutros países europeus, houve perda de confiança, mas continuamos a ser o país da Europa onde mais se confia. Como se entende esta combinação?

Portugal tem, há muito, uma cobertura vacinal elevada e uma grande confiança da população na vacinação. Ainda assim, é verdade que há fatores que ajudam a perceber algumas oscilações. Um deles é a chegada de pessoas oriundas do leste europeu, onde a confiança nas vacinas sempre foi bem mais baixa. Isto é relevante porque vivemos num mundo em constante mobilidade e, por isso, os efeitos da vacinação não ficam limitados às fronteiras de cada país.

De que maneira é que este ceticismo global nos pode afetar?

É importante ter noção de que algumas destas doenças são extremamente transmissíveis. O sarampo é um exemplo. Os surtos podem começar com facilidade. Em Portugal isso já aconteceu pontualmente, mas, neste momento, nos Estados Unidos, já existe grande dificuldade em controlar surtos de sarampo. Nos últimos anos, o número de casos cresceu bastante. É triste haver sofrimento e mortes que eram totalmente evitáveis.

Para lá do sarampo, que outras doenças podem regressar?

Diria que, potencialmente, todas aquelas para as quais já existem vacinas e que conseguimos quase eliminar. Digo “quase” porque, oficialmente, nunca erradicámos nenhuma doença além da varíola. Isto é paradoxal se pensarmos que, ao mesmo tempo, existe uma consciência coletiva de que seria importante prevenir muitas doenças infeciosas para as quais ainda não há vacinas. A malária, por exemplo, que mata muitos milhões de crianças todos os anos. Ou o HIV, ou certas formas de hepatite que ainda não têm tratamento.

Por exemplo, o cancro do colo do útero pode ser evitado de forma bastante eficaz com a vacina contra o HPV. O que se está a ver agora é que, à medida que a população vacinada envelhece e entra nas idades em que apareceriam alguns casos, o cancro está a desaparecer. O benefício é inequívoco e seria muito lamentável perder esse ganho.

covid‑19, vacinas de mRNA e a perceção pública

Pode dizer-se que a vacina da covid‑19 marcou o início desta desconfiança em relação à vacinação?

Será muito interessante analisar a pandemia do ponto de vista sociológico. Hoje existe uma perceção generalizada de que o SARS-CoV-2, no fim de contas, não é assim tão grave - afinal a doença é até ligeira. Isso acontece porque todos já fomos expostos ao vírus e temos uma boa imunidade. Mas acabamos por esquecer como estava o país em janeiro de 2021, com filas de ambulâncias à porta dos hospitais.

Como explica que, em 2021, quando surgiram as vacinas de mRNA, muita gente as tenha visto como algo apressado, quase experimental?

Essas vacinas já vinham a ser investigadas; algumas estavam mesmo em ensaios para outros vírus associados a doenças tropicais. E o aspeto curioso é que permitem uma adaptação muito rápida. Pela forma como são desenhadas, foi possível alterar rapidamente a sua estrutura para que dessem proteção contra o SARS-CoV-2.

Por isso foram desenvolvidas depressa, tal como as que recorrem a adenovírus - como a vacina da Janssen, a da AstraZeneca e, na Rússia, a Sputnik. É importante sublinhar que todas passaram por estudos rigorosos antes de serem administradas à população.

“Todas as vacinas [contra a covid] passaram por estudos rigorosos antes de serem administradas à população”

Foi co‑presidente do Grupo Consultivo Nacional para a Vacinação contra a covid‑19. Qual foi a maior dificuldade nesses meses?

Sem qualquer dúvida, o pior foi em dezembro de 2020 e janeiro de 2021 sabermos que existia uma estratégia muito poderosa para prevenir doença grave e mortes e, ao mesmo tempo, não termos doses suficientes para vacinar toda a população.

Ensaios clínicos, escrutínio e como a ciência funciona

No meio do descrédito em torno das vacinas, há quem acredite que existem cientistas “combinados” para testar coisas nas populações. O que responde a isso?

Para realizar qualquer ensaio [clínico], nos países ocidentais, é obrigatório submeter a proposta a uma comissão de ética independente. Assim, todos os estudos são avaliados e escrutinados.

Esse escrutínio acontece também pela interação entre cientistas?

Sim, e é um escrutínio intenso entre investigadores que trabalham na mesma área. Já lá vai o tempo em que um cientista isolado conseguia, sozinho, fazer uma contribuição verdadeiramente notável - falo da época de Marie Curie. Hoje, regra geral, os estudos envolvem equipas e cientistas de várias instituições, porque existe a noção de que o progresso exige esforço coletivo.

A ciência ensina-nos também a forma como devemos posicionar-nos perante a sociedade?

Num mundo como o atual, com tantas barreiras, ser cientista é um privilégio, precisamente porque permite ter colegas e amigos em todas as partes do mundo. A ciência aproxima as pessoas.

Guerras, pandemias e o próximo grande salto

A história mostra que, em grandes crises - guerras e pandemias - a ciência tende a avançar por necessidade. Qual poderá ser o próximo salto científico?

Não podemos esquecer que as guerras têm também um impacto enorme no regresso destas doenças infeciosas que já estavam a desaparecer. Tipicamente, quando há guerra, deixa de existir infraestrutura para vacinar a população. E, de imediato, voltam a surgir epidemias preveníveis por vacinação, como as de sarampo, tétano, etc. Essa é uma consequência.

Mas aquilo que eu espero é que o próprio contexto internacional funcione como uma vacina social contra o prejuízo que tudo isto nos provoca. Seria bom compreendermos melhor a importância da paz.

Do ponto de vista científico, espero que o mundo ocidental seja mais generoso a olhar para problemas que afetam outras regiões do globo. Seria importante pensar em formas de evitar doenças muito ligadas a países tropicais, mas que, com as alterações climáticas e com a circulação das pessoas, terão cada vez mais impacto nas nossas próprias sociedades.

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